Aqui na Austrália, a frase “sharing is caring” é repetida quase automaticamente quando falamos de crianças. A intenção costuma ser boa: ensinar empatia, gentileza, consideração pelo outro. Mas, à luz dos princípios RIE, vale a pausa para refletir… Será que forçar uma criança a compartilhar realmente ensina tudo isso?
Muitos adultos acreditam que, ao insistir para que a criança empreste um brinquedo, ela estará aprendendo a dividir, a ser empática, a pensar no outro. Porém, na prática, o que muitas crianças aprendem é algo bem diferente: que seus sentimentos não importam tanto, que dizer “não” não é permitido e que alguém maior decidirá por elas o que deve ser feito com aquilo que é seu.
Vamos imaginar uma situação entre adultos. Você compra uma roupa nova ou uma maquiagem especial. Uma amiga vem à sua casa, gosta muito e pede para usar. No fundo, você não quer emprestar. Talvez porque acabou de comprar, talvez porque é algo pessoal, talvez simplesmente porque não quer – e tudo bem não querer. Agora imagine alguém dizendo que você é obrigada a compartilhar, que negar seria egoísmo, que “compartilhar é cuidar”. Mesmo entendendo racionalmente o pedido da amiga, a sensação interna seria provavelmente de desconforto, invasão ou até culpa.
Com as crianças, acontece algo muito parecido. Quando insistimos para que elas emprestem algo de que gostam muito, especialmente quando ainda não estão prontas, não estamos ensinando empatia. Estamos, muitas vezes, gerando sentimentos negativos: frustração, raiva, vergonha ou tristeza. E sentimentos forçados raramente se transformam em aprendizado genuíno.
Empatia não nasce da obrigação, mas da experiência de ser respeitado. Uma criança que tem seus limites reconhecidos aprende, com o tempo, a reconhecer os limites do outro. Quando dizemos “vejo que você não quer emprestar agora” ou “esse brinquedo é importante para você”, estamos ajudando a criança a se sentir segura em seus sentimentos. É dessa segurança que, mais adiante, surgem gestos espontâneos de generosidade.
Isso não significa que nunca podemos falar sobre o outro ou sobre esperar a vez. Significa apenas que não precisamos forçar o ato de compartilhar para ensinar cuidado. Podemos nomear o desejo da outra criança, apoiar a espera, oferecer alternativas e confiar no desenvolvimento emocional. Compartilhar, quando vem de dentro, é muito mais poderoso do que compartilhar por pressão.
Talvez a pergunta não seja “como faço meu filho compartilhar?”, mas sim: “como posso criar um ambiente onde ele se sinta respeitado o suficiente para, um dia, querer compartilhar?”

