O que acontece quando distraímos uma emoção?

Diante do choro, da frustração ou do desconforto de uma criança, muitos adultos recorrem automaticamente às distrações.
“Olha ali o passarinho!”
“Quer um snack?”
“Vamos pegar seu brinquedo favorito?”

Na maioria das vezes, isso não nasce de má intenção – nasce da falta de informação, do cansaço, ou do desconforto que sentimos ao ver uma criança sofrer. Mas o que parece ser o caminho mais fácil no curto prazo pode ter consequências profundas ao longo da vida.

Quando uma criança é constantemente distraída sempre que demonstra emoções difíceis, ela não aprende a reconhecê-las, atravessá-las ou regulá-las. Aprende, em vez disso, que sentir é algo a ser evitado, silenciado ou “consertado” rapidamente.

Inspiradas pelo approach RIE e por educadoras como Magda Gerber e Janet Lansbury, sabemos que a autorregulação emocional não nasce da distração, mas da presença. Da criança se sentir vista, escutada e acompanhada enquanto vive aquilo que sente.

Distração interrompe o processo.
Presença sustenta o processo.

Uma criança que não aprende a lidar com frustrações tende a se tornar um adulto que também não sabe. E, na vida adulta, as distrações mudam de forma: comida, álcool, excesso de trabalho, redes sociais, compras, jogos, relacionamentos rasos. “Válvulas de escape” que aliviam momentaneamente, mas não curam.

Não aprender a olhar para dentro cria adultos que fogem.
E essa fuga começa cedo.

Isso não significa deixar a criança sozinha com sua dor, nem ignorar seus pedidos. Pelo contrário. Significa estar ali com ela. Nomear o que acontece. Validar o sentimento. Oferecer segurança emocional, sem precisar apagar o desconforto imediatamente.

“Eu vejo que isso é difícil.”
“Você está frustrado.”
“Estou aqui com você.”

É assim que se constrói base emocional.
É assim que se ensina uma criança a confiar em si mesma.

Vivemos em uma sociedade que corre para silenciar qualquer desconforto. Mas crianças não precisam de distração – precisam de adultos que sustentem presença.

E essa escolha, silenciosa e cotidiana, constrói não apenas a infância…
mas o tipo de adulto que essa criança se tornará.

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